Meus porquês e meu consequente caminho em direção ao minimalismo

Primeiramente, gostaria de dizer que, diferentemente das minhas postagens comuns, esta é um pouco mais impulsiva. Estou devendo dois posts que deveriam ser publicados em sequência (atenção: spoilers): Combo Lixo Zero no Banheiro Parte II (a continuação do post anterior); e a nossa indicação para o Sunshine Award (clique aqui para ver a indicação pelo blog Grünish, escrito por Inge, a blogueira organizadora do nosso Zero Waste Bloggers Network)! Pois é, já temos dois prêmios recebidos por outros blogueiros, mas aguente firme que a próxima publicação será sobre isso!


Quando recentemente li a matéria sobre a jovem que ficou 200 dias sem comprar nada (apenas alimentos e produtos básicos de higiene), eu me identifiquei muito com a história. Antes dela, li outra história, sobre uma alemã que ficou um ano sem comprar nadinha de nada, nem sequer alimentos. Veja aqui a história dela! Diferentemente do caso da moça da primeira história, e eu comecei a fazer essa mesma reflexão quando uma série de coisas diferentes começaram a acontecer na minha vida.

Atenção: este post será um relato sobre experiências pessoais minhas com relação ao consumo, então não será um post com dicas, mas um post expositivo da minha própria vivência.

Eu não contei quantos dias desde que eu “não compro mais nada”, mas eu tenho certeza que faz mais ou menos o mesmo tempo que ela. As únicas coisas que eu comprei nos últimos tempos são ligadas à minha transição para um estilo de vida mais ecológico. Doei muitos depósitos plásticos e precisei adquirir outros de vidro ou de metal.

Enfim, antes que eu comece a divagar muito sobre a situação, deixe que eu comece pelo começo…


Começando pelo começo…

Para falar a verdade, não sei se existe um começo nesta história. Não posso dizer exatamente se houve o momento da mudança, o momento da virada. No entanto, sempre achei muito estranho colocarmos nosso lixo num saco plástico, depositar num container maior ainda e nunca mais vê-lo ou saber para onde está indo. Isso por si só deveria ser um alerta! Mas nossa sociedade costuma tratar esse tipo de coisa como algo normal (nem vou colocar as aspas porque realmente é tratado como normal, sem aspas mesmo).

Anos se passaram e quando eu estava no meu segundo ou terceiro ano de faculdade (nos idos anos de 2008/2009) eu estava morando com mais duas colegas. Eu era mais próxima de uma delas e ela me mostrou um video – provavelmente no YouTube, mas que ficou perdido no tempo – com uma reflexão sobre onde vai nosso lixo. De forma impactante, aquilo ficou na minha memória. Entretanto, como todo mundo, eu era ocupada e tinha mais o que fazer, do que tentar resolver esse problema. A questão é: o problema nunca saiu da minha mente.

Em 2010, no meu penúltimo ano de faculdade, eu fui morar sozinha (aliás, 2010 foi um ano de muitas conquistas pra mim; talvez um dos anos mais felizes) e, finalmente, eu comecei a ter um controle melhor sobre as minhas coisas. Demorei, mas achei lixeiras empilháveis; comprei adesivos na internet para separar papel, vidro, metal e plástico e comecei a levar meus resíduos para um supermercado próximo que tinha posto de coleta de recicláveis. O lixo do banheiro e os orgânicos da cozinha, além de embalagens de lasanha congelada e coisas do tipo, eu continuei colocando no lixo comum, achando que eu estava fazendo a minha parte e que já era muito mais do que a maioria das pessoas. E era verdade. Aquele pensamento sustentou minha mentalidade ecológica por anos.

Mal sabia eu que o problema era MUITO mais complexo e muito mais interligado com uma série de padrões da sociedade, do consumo, de como as coisas são e funcionam. Quando eu comecei a ler blogs de pessoas que não produziam lixo, aquilo foi como um alerta! Eu não conseguia compreender e comecei a pensar em todos os mínimos detalhes do que uma pessoa deveria fazer para não produzir absolutamente nada de lixo. Esse pensamento evoluiu ao longo dos últimos 8 meses e hoje eu entendo melhor o conceito de não produzir “nenhum lixo”  que, no fim das contas, é relacionado a não encaminhar seus itens um aterro sanitário e isso, muitas vezes, requer mudança de hábitos até um pouco radicais; não só isso, mas também refletir sobre que tipo de resíduo produzimos e o corte da demanda na indústria ao não utilizar embalagens ou não adquirir produtos sem realmente precisar deles (indústrias são muito poluentes, consomem muita água e energia elétrica). Essa discussão é longa e merece pelo menos uma publicação dedicada a ela. Então, fiquem atentos! 😉

Paralelamente a essa descoberta, eu comecei a prestar várias candidaturas a vagas de doutoramento fora do Brasil. Perceba que muito tempo se passou desde o início da reciclagem até a candidatura do doutoramento: eu me formei, trabalhei um tempo – pasme! – no mercado financeiro; pedi demissão e continuei vivendo de bicos como aulas particulares, professora substituta em escolas, tradução freelancer, etc. – todos trabalhos que me renderam um dinheiro ótimo e todos ligados a produção intelectual e sem chefe, o que pra mim era o suprasumo da independência e felicidade – até que passei na prova para mestrado acadêmico e mais dois anos já haviam se passado.

Durante o processo de candidatura de doutoramento eu comecei a pensar sobre o que eu ia fazer com as minhas coisas. Desde 2010 eu morava só e, mesmo antes disso, eu já havia acumulado uma quantidade enorme de coisas que eu trouxe da casa dos meus pais comigo. Uma quantidade enorme de livros, de roupas, de gadgets, de itens de decoração, etc. Tantas e tantas coisas que eu comecei a me sentir absolutamente sufocada. O processo de administrar todos os meus itens pessoais começou a ser um problema sério para mim. Eu desenvolvi uma ansiedade fora do normal (que ainda não está totalmente domada) causada pelo acúmulo de bens ao longo dos anos! — A ironia da história é que já era a pessoa mais desapegada entre os membros da minha família, como meus pais; imagine como eles não são!

Voltando rapidamente ao ano de 2012, eu descobri um site chamado Enjoei no qual era possível vender coisas usadas e em bom estado. E eu comecei a colocar vários itens meus que eu sabia que não seriam úteis nem se eu quisesse doar (quem iria querer usar uma blusa social da época que eu trabalhava no mercado?). Inclusive vendi vários itens dos meus pais, como roupas, livros, perfume quase nunca usado, etc. Ou sabe aquele presente que você recebe, mas não tem como trocar? Ou ficaria muito chato se você trocasse? Enfim, tinha achado o site perfeito para colocar esses itens disponíveis para outras pessoas que, de fato, estariam dispostas a usá-los! (Se alguém estiver curioso, clique aqui para acessar a minha lojinha.)

No mesmo ano de 2012, eu me tornei uma anfitriã pelo Airbnb, compartilhando um quarto extra no meu apartamento para quem precisasse de um quarto para ficar durante o tempo necessário – e que, obviamente, eu pudesse disponibilizar. Mal sabia eu que eu estava entrando ativamente na era do consumo colaborativo! E que eu já estava, assim, colaborando fortemente para um mundo mais sustentável ao dar um novo lar a itens em bom estado e abrindo as portas para pessoas que viessem de fora, economizando energia, água, etc. e compartilhando meus itens, como  máquina de lavar roupas, geladeira, etc.

Foi então que na transição do fatídico ano de 2014 para 2015 que eu comecei minhas candidaturas e comecei a seguir esses blogs lixo zero mundo a fora. Minha visão sobre as coisas mudou radicalmente. Por que eu preciso de 30 potes para guardar mantimentos se eu uso no máximo 10? Por que eu preciso comprar no supermercado, se eu posso comprar em lojas de produtos a granel pagando muito mais barato e sem gerar lixo nenhum com embalagens? Por que eu precisava de uma câmera, se meu celular já tirava fotos com a mesma qualidade? Por que eu precisava guardar tanta papelada, se eu podia ter os documentos em pdf (como a conta de luz, por exemplo)? Por que eu precisava de incontáveis blusas se eu não uso todas frequentemente? Por que eu precisava ter tanto apego a todos os meus livros, inclusive MUITOS que eu comprei e nunca li ao longo de 10, 15 anos? A vontade de ler vários até já passou! Os gostos mudaram!

Enfim, muitos porquês surgiram nesse processo e eu percebi que eu estava vivendo, literalmente, uma vida cheia de tralhas! Tralhas que estavam me atrapalhando, impedindo que eu tivesse mobilidade, que eu evoluísse, que eu pudesse me mudar se precisasse. Enfim, coisas que dão tanto trabalho de manter, cuidar, guardar… para não ter nenhuma utilidade, impedindo outros de terem acesso a esses preciosos bens!

Desde então eu vivo um processo de transição para um estilo de vida minimalista. Isso não quer dizer, em absoluto, que eu vou parar de comprar coisas. No entanto, isso quer dizer que eu já parei de comprar impulsivamente nesse sistema de hiperconsumismo. Inclusive dando um destino mais apropriado para cada item que eu acho que não vou usar. E tento ser sincera comigo mesma! Já dei um novo destino para cerca de 40% dos meus livros! Vendi, doei,… Tudo dependendo do público de cada livro; até livros caros, como de Cálculo e Álgebra Linear, entre outros, que usei durante minha graduação, eu doei para a biblioteca na Universidade (imagine quantos alunos de graduação agora se beneficiarão deles, ao invés de ficarem pegando pó na minha estante!!!).

Não, eu não preciso de tudo isso. Não só não preciso, como eu não quero tudo isso. No fim das contas, eu aprecio mais a simplicidade dos momentos, as pessoas, os encontros e desencontros, ao invés de me preocupar tanto em ter que pagar a conta do cartão de crédito carregado de futilidades compradas. Na verdade, com a venda de itens não usados e com a abertura do apartamento para pessoas que precisam, eu já recebi uma quantia tão alta de $$, que é melhor deixar quieto e não entrar nos números. Apenas saiba: vale a pena.

No fim das contas, eu tenho o que eu realmente preciso. Ainda estou em processo de redução de tralhas, o que deve durar ainda alguns meses, mas isso tem me trazido um bem-estar sem fim! Eu não preciso mais me preocupar com a manutenção de tantas e tantas e tantas coisas. Agora, eu me preocupo em dar valor para as que eu realmente preciso e repenso 50 vezes antes de adquirir algo.

Shopping é um lugar obscuro onde as pessoas vão passar o fim de semana com suas famílias e comprar e comprar e comprar. Por que não ler um livro? Por que não ir ao parque? Ou à praia? Ou ir para uma fazenda no interior? Curtir uma cachoeira? Fazer um turismo na cidade? Ir a um Museu? A cidade oferece tanto e nós aproveitamos tão pouco. É muita frivolidade!

Chegou a hora de repensarmos nossos valores, de dar valor ao que temos e encaminhar o que não precisamos e que pode ser de utilidade para outras pessoas. O que conta na vida são os momentos vividos com as pessoas que amamos e o sentimento de que fizemos coisas realmente relevantes. Afinal de contas, todos iremos morrer e na morte só se levam as experiências e nada mais.

2 comentários sobre “Meus porquês e meu consequente caminho em direção ao minimalismo

  1. Laís @thediabeticviking disse:

    Adorei, Malu! me mudar pra outro país, agora, foi a primeira mudança que fiz na vida. sempre havia morado no mesmo lugar, mas felizmente não gostava de acumular coisas. Agora, morando num apartamento pequenininho com o marido, tivemos que encontrar lugar pra tudo e… não foi um grande problema! Quando eu voltar pro Brasil vou me desfazer de muitas coisas que deixei por lá, e inclusive levar de volta pra me desfazer de coisas que trouxe mas que descobri serem inúteis! Sabe o que mais me surpreendeu? sapatos! a infinidade de sapatos que tenho e não uso. e eles já me incomodam rs.
    Vindo pra cá também percebi que posso comprar MUITO menos do que comprava antes. Na verdade também percebi que faz tempo que não compro nada por impulso, e tenho adorado.
    Infelizmente por aqui não conheço (pelo menos ainda) lojas que vendam a granel. mas pretendo mudar isso.
    um super beijo!

    Curtido por 1 pessoa

    • Malu disse:

      Oi Laís! Obrigada pelo seu belo comentário! Pois é, eu não achava que eu acumulava tanta coisa, eu sempre fui daquele tipo de pessoa que faz “limpezas grandes” de tempos em tempos, removendo cacarecos. Mas agora eu faço umas menores e barro a entrada de mais coisas, apenas do que eu realmente preciso. Achei curiosa sua história dos calçados! Eu também tenho vários, mas estou usando-os até acabarem. Se realmente não der para ser diferente, vou vender. Tem coisas que eu vou avaliando de tempos em tempos! E tem dado certo! Sobre lojas a granel, é difícil achar mesmo. Até em metrópoles, como São Paulo, temos uma zona que tem muitas lojas e outras poucas espalhadas pela cidade. O triste é que é algo antigo que se perdeu. Paciência. Vamos levando como dá! 🙂 Um beijo grande! :-*

      Curtido por 1 pessoa

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